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    16.11.2017

    Por Marsílea Gombata e Renato Rostás | De São Paulo

    O aumento da produção de carros elétricos deve beneficiar a América Latina, com maior demanda por metais como cobre, níquel e lítio. Hoje, o Chile é o maior produtor de cobre do mundo e o segundo maior produtor de lítio - atrás apenas da Austrália. O Peru é o terceiro maior fornecedor mundial de cobre. O Brasil, por sua vez, tem pouca produção dos três metais, figurando entre o sexto e o sétimo maior produtor de níquel.

    Relatório recente sobre commodities do banco Goldman Sachs e projeções da mineradora SQM sugerem que a produção de lítio terá de quadruplicar dentro de dez anos para atender à produção de baterias para carros elétricos. O Goldman Sachs aponta ainda o crescimento da demanda por metais como o níquel - utilizado junto ao lítio em algumas baterias - e o fato de que o circuito elétrico desses carros requer quantidades extras de cobre.
     
    A perspectiva, diante do avanço de veículos elétricos no mercado, é que a demanda por níquel cresça entre 200 mil e 300 mil toneladas até 2025. Já o consumo de cobre no período deve aumentar entre 850 mil e 1,25 milhão de toneladas. Com a tendência de substituir o aço por alumínio nos carros elétricos, para torná-los mais leves, a perspectiva é de demanda adicional de 6 milhões de toneladas de alumínio até 2025.

    Até lá, segundo previsão da SQM, a América Latina deve ultrapassar a Austrália na produção de lítio. A região, que hoje produz 104 mil toneladas por ano, deve atingir a marcar de 279 mil toneladas anuais, enquanto a produção australiana deve chegar a 269 mil toneladas em 2025. Nesse período, a demanda mundial deve triplicar, para 600 mil toneladas.

    O Departamento de Indústria, Inovação e Ciência da Austrália espera que, até 2019, a oferta de cobre e níquel cresça 1,1 milhão de toneladas. Para a corretora australiana ANZ Research, a maior parte da produção de níquel terá como destino a fabricação de baterias na próxima década. Até 2025, a demanda pode quintuplicar.

    Jaime Alée, do Centro de Inovação do Lítio, da Universidade do Chile, estima que a produção chilena crescerá, mas terá papel reduzido na oferta global. "Se hoje produzimos 75 mil toneladas, 38% da produção mundial, em 2030 chegaremos a 180 mil toneladas, 18% do total mundial", diz. Segundo ele, a perda de protagonismo será causada pelo aumento da produção da Argentina e Austrália (veja gráfico ao lado).

    A Argentina atualmente produz 29 mil toneladas de lítio por ano, mas deve extrair o dobro dentro de três anos, afirma Hernán Vera, da consultoria argentina HV Mining. O setor é uma das apostas do governo do presidente Mauricio Macri para atração de investimento estrangeiro direto (IED). A perspectiva é que em cinco anos os novos investimentos em projetos de lítio totalizem US$ 1 bilhão.

    As reservas da Argentina e do Chile estão no chamado Triângulo do Lítio, que concentra 60% das reservas mundiais, segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS). Diferentemente da Austrália, onde é retirado de rochas, no Chile e na Argentina o lítio é extraído das salmouras dos salares.
     
    A Bolívia também possui lítio, mas não tem as reservas mapeadas, o que dificulta estimativas de produção, afirma o economista boliviano Juan Carlos Zuleta. O USGS estima que a Bolívia tenha 9 milhões de toneladas de lítio. A cifra, no entanto, diz respeito a recursos, e não reservas que possuem viabilidade econômica. Um caso semelhante é o da Argentina, que tem reservas comprovadas de 2 milhões de toneladas, mas recursos potenciais de 9 milhões de toneladas. O Chile, por sua vez, tem 7,5 milhões de toneladas em reservas de lítio.

    Apesar de a Bolívia ter criado uma estatal para o lítio (a Yacimientos de Litio Boliviano, YLB) neste ano e ter exportado 25 toneladas do produto para a China no ano passado, o governo diz que as exportação de lítio renderão US$ 1,5 bilhão por ano ao país. A produção ainda é incipiente, mas o governo planeja extrair 5 mil toneladas por ano até 2020 - o que representaria 2% da demanda mundial.

    "O nível de IED na América Latina por causa do lítio começará a crescer em cinco anos, principalmente na Argentina e, depois, no Chile", diz Divya Reddy, analista de energia da consultoria Eurasia.

    Sergio Guzmán, da consultoria Control Risks, afirma que o lítio tem potencial de revolucionar as economias da região, "se elas forem capazes de administrar os processos de extração, produção e comercialização". "A demanda crescerá nos próximos anos, e será necessário desenvolver políticas para atrair o investimento e aproveitar o boom. Do contrário, o lítio será só mais uma commodity da qual podem ficar dependentes."

    Ainda não está totalmente claro quais matérias-primas de fato serão decisivas quando a frota de veículos elétricos crescer. "É uma tecnologia em evolução, e em questão de meses os componentes que melhor se encaixam podem mudar", afirma David Wong, diretor da consultoria A.T. Kearney. "Busca-se maior compactação, melhor retenção de carga e velocidade de descarga. O lítio, no entanto, tem sido uma constante na equação."

    O mercado financeiro vem avaliando a futura demanda dos carros elétricos por metais. Estimativas de preço da corretora CLSA, de Hong Kong, mostram oportunidade de elevar o faturamento com a produção dos metais em ao menos 25% até o fim desta década. Haverá espaço para novos projetos, pois a perspectiva de longo prazo é que a demanda supere a produção.

    Além de fornecer os metais, a América Latina precisará investir pesado em infraestrutura para os carros elétricos. Europa e EUA possuem bem mais postos de recarga do que o Brasil e outros países latino-americanos. "Essa não é uma realidade que se transforma da noite para o dia", afirma Wong.

    Fonte Internet: Valor Econômico, 16/11/17